Intitulado pela imprensa de perueiro, que segundo dicionário quer dizer ‘pessoa com conversa fiada e cheia de invenções. Vem de perua, que é mentira ou invenções’, mas este significado não retrata o perueiro Majela que iniciou na ‘lotação’ no final dos anos 90.

Super-herói mulato. Quando chega às linhas exerce um papel de liderança, sempre com a cabeça erguida. Os motoristas e o fiscal já se aproximam e puxam conversar acerca das demandas da linha, da operação ou até de um fato inusitado que ocorreu com algum passageiro.

O líder nato da Transwolff Geraldo Majela Soares dos Santos, 59 anos, coordena as linhas do 6083-10 – Jd. Eliana – Term. Grajau e 6L11 – Ilha do Bororé – Term. Grajaú, que utiliza uma balsa para transportar os passageiros até a ilha.

Este mineiro de Araçuaí, região do Vale do Jequitinhonha, cidade de 37 mil habitantes a 678 km da capital mineira perdeu a mãe aos 12 anos de idade e o pai aos 13, momento que deixou a modesta Araçuaí.

Ele chegou a Cajuru (SP) com o gato, empreiteiro da mão de obra, aos 13 anos para o corte de carte de cana. Trabalhou no canavial até os 18 anos.

De lá seguiu para São Paulo, onde assumiu o cargo de ajudante geral em uma construtora durante 15 anos. “Entrei como ajudante e sai como diretor de compras, conta Majela orgulhoso.

Nos últimos anos no trabalho adquiriu duas vans para iniciar no transporte. Em 1997 trabalhou na primeira linha, a Cocaia – Sto. Amaro, ao lado da mulher, Maria Elvira Esteves, que trabalhou como cobradora durante 3 anos.

“Aquela adrenalina era gostosa. A gente fugia do cavalo de aço (apelido dado as motos da Rocam) e da Maria Bonita (apelido das viaturas da SPTrans) na época do transporte clandestino”, diz. “Sai da empresa grande para entrar na lotação. Faria tudo de novo”, conta orgulhoso.

Porém, após a legalização, a lotação a qual trabalhou foi a primeira a ser enfaixada na linha. “Minha matrícula foi a 317”, lembra.

“A amizade e o trabalho nos fortalece aqui na Transwolff. A gente faz o bem para a firma. Luiz é como se fosse meu pai”.

Majela conta que o líder já nasce líder, não se torna líder. “Ninguém é líder por acaso, já nasce com este Dom. Tá no sangue. Somos lutadores. Se é para ir pra cima, vamos com tudo”, conta o coordenador.

Ele afirma que o exemplo na vida é não desistir. “Em 2000 nos acorrentamos na Prefeitura durante sete dias e ainda bloqueamos durante quatro horas av. do Estado”, lembra.

“Majela é um lutador, um líder”, enfatiza Luiz Pacheco, presidente da Transwolff.

Para Rufino Costa Souza, 49 anos, motorista da linha 6083-10 – Jd. Eliana – Term. Grajaú há 4 anos Majela é presente e que não só ele como todos os motoristas são privilegiados por terem um líder na linha.

“Ele é conselheiro, prestativo e amigo. É um profissional que a qualquer hora do dia que precisamos está à disposição para nos ajudar. Jamais fala não. Outra coisa tem saída para tudo, nunca deixa a gente na mão. É o nosso líder”, elogia.

Bruno Esteves dos Santos, 27 anos, filho de Majela, é motorista da linha 6726-10 – Jd. Gaivotas – Term. Grajaú e segue os passos do pai desde os 21 anos quando começou na linha 6083-10.

“Repeti a 8ª série duas vezes para estar com meu pai na lotação. Ele é meu braço direito. Sem ele não seria o que sou hoje”, elogia. “Desde cedo segui no rumo da lotação, sempre procurei ser um exemplo para o meu pai. Continuo com a mesma disposição de sempre”, diz Magela filho.

O filho é o espelho do pai. Deve seguir os passos do pai. Tá comigo há muito tempo. Aos 21 anos tirou a habilitação e já era motorista da linha Jd. Eliana – Term. Grajaú.

“Tudo que fiz, foi para ele e minha família. Tá tudo montado, agora só tocar em frente. Eu e meu filho é carne e unha.”

Recentemente Majela sofreu um infarto em um dos rins, mas isso foi uma marola para que este guerreiro não deixe de lutar e continue a trafegar pelas ruas do extremo sul da zona sul de São Paulo para acompanhar cada detalhe das linhas que coordena.

“A Transwolff é uma família”, enfatiza Majela.

“Quero aproveitar para agradecer o Luiz (Luiz Pacheco) a Bel (Izabel Bryan) e o Alemão (Roberto Belchior) que acompanharam meu pai como se fosse da família”, reconhece e elogia o filho Bruno.

Saiba mais

A Transwolff é única empresa na cidade de São Paulo que utiliza o ônibus na balsa para transportar passageiros. Para entrar e sair da Ilha do Bororé de transporte coletivo só tem um jeito: pelos ônibus da Transwolff. A ilha, onde vivem cerca de duas mil famílias, fica na área urbana de São Paulo, no extremo sul da cidade, no meio da represa Billings.

São seis ônibus convencionais que operam das 4h às 1h, com saídas a cada meia hora. Um itinerário de 12 km e 40 minutos de viagem.